Reconciliação

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Reconciliação

Eu sei. Foi um processo cansativo de eleições. Radicalismos (ainda que sejamos mais aptos a perceber que os radicais são os outros).

A hiperconectividade propiciou viver as eleições para além dos tempos costumeiros da propaganda regulamentar. Muitos mais cabos eleitorais, que usavam seus dedos rápidos em teclados virtuais.
Como observador da saúde mental, percebi muitas pessoas sofrendo mais que o costumeiro nestas últimas eleições. Pacientes, colegas, amigos, familiares.

O medo e a raiva foram utilizados como conselheiros, de lado a lado: desassossego.

Minha esposa pedia, frequentemente: por favor, não discutam política. Regra boa, mas quase que universalmente desobedecida.

O fato de passar por um momento vivencial único, fora de meu distrito eleitoral, me colocou numa posição algo privilegiada para observar os movimentos de lado a lado. A impossibilidade de votar e, portanto, ser convencido por um lado ou outro, me fez uma espécie de alienígena. Ainda que tenha que comer o que escolheram para mim. Jejuar nem sempre é uma opção.
É sempre assim: mesmo quando seu candidato é o vencedor, é porque os outros o escolheram para você também. Andorinha que voa sozinha dá chabú.

Eis o dilema da democracia, seu pilar fundante: se você está numa sala de aula e quer que a janela seja aberta e outros preferem a janela fechada, sua opinião entra na composição do todo, ainda que seja sobrepujada. Todas as opiniões foram ouvidas, ainda que seja impossível contemplar a todos.

Sometimes you win, sometimes you loose. Barack Obama

E é bom que seja assim. A alternância do poder é benéfica. Concordo com aqueles que pensam que o preço a pagar pode estar inflacionado.

Nesta noite tive um sonho que gostaria de compartilhar. Acho que reflete esperanças de muitos brasileiros.

Sonhei que o presidente vinha se tratar comigo. Era um paciente desafiador,sonhador. Tinha lá seu encanto. Era apenas o começo da relação terapêutica e senti-me lisonjeado. Percebi a lisonja como o início de um micro-poder, a semente da desarmonia. Vieram me perguntar se era verdade que ele estava se tratando. Apenas não respondi. Fiquei algo orgulhoso por não quebrar sigilo nem em sonho. Novamente o orgulho… (ah, a vaidade, meu pecado capital – quem aí se lembra do filme “O Advogado do Diabo”?).

Acredito que o processo de adoecimento possa ser uma chave para a humildade e para a humanidade. A consciência de finitude, temporalidade. Revisitar-se em face do grande contexto, do grande mistério. Reconhecermos que, mais perto ou mais longe uns dos outros, estamos numa espécie de grande arca de Noé, fosse Noé o sujeito que dá corda no relógio insubstancial do tempo.

Um sujeito que se torna presidente tem o desafio de buscar o bem comum e esquivar-se de buscar o próprio favorecimento (e dos seus). Equilíbrio é palavra chave neste processo. Dizem os taoístas que um seguidor de Tao sabe quando tem o suficiente. Isto o impede de buscar o que não conquistou com esforço próprio ou mais do que é suficiente.

O paradoxo de Stalin: questionado sobre sua biografia, respondeu laconicamente – apenas quero que conste que nada do que fiz foi em meu interesse próprio. (Ou algo muito semelhante, quem quiser saber mais detalhes, existe um site chamado Google).

O mesmo paradoxo, em análise mais profunda, encontra-se em David Hume, nos seus Ensaios Morais, Políticos e Filosóficos, em que discorre sobre a natureza humana. Argumenta que a vaidade é um efeito colateral da ação benevolente e correta mas não sua motivação.

Eu não preciso (tampouco vocês, caros leitores) tomar um saco de 60 litros de café para saber se o mesmo é de boa qualidade. Um punhado basta. Os políticos são um punhado do povo (sei que isto soa como um soco na cara – não intencional). Se desejarmos melhores políticos, o trabalho deve começar dentro de cada um, de cada casa, na nossa comunidade local, nossa cidade. Do pequeno para o grande, do sútil para o corporal, do sonho para a realidade, de dentro para fora, de um para todos e de agora por diante.

Passou. Uma das chaves da sabedoria é perceber que isto também passará. Isto, as eleições, passaram. Isto, nós mesmos.

Tenho esperanças. Esperança, aquela que ficou no jarro de Pandora (era um jarro, representativo do útero, local de nascimento de todas as esperanças e não uma caixa, quadrada e masculinizada, como dizem). E se a esperança ficou na caixa – ops, jarro – era porque não era boa nem má. Se mal utilizada, pode gerar apatia, distanciamento, indiferença. Melhor ter curiosidade e atenção, abertura e presença.

Isto é o que proponho aos meus companheiros da arca do tempo: trocar o medo, a raiva, a intolerância por curiosidade, participação, presença, atenção. Reconciliação.

About the author

Hamer Palhares

Dr. Hamer Palhares é médico psiquiatra com ênfase no tratamento de pacientes com problemas decorrentes do uso de substâncias. Escreve sobre qualidade de vida, saúde mental e psiquiatria. Autor do livro de ensaios Tamarindos e Sonhos (Amazon).

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