Ninguém mais lê blogs

N

Hoje me (res)surgiu a idéia de escrever um blog. Zapeei por alguns blogs internacionais, pesquisei diversos temas para sites de wordpress, fui checar como estava meu plano de hospedagem. Pensei em voltar a escrever um blog, mas desta vez mais minimalista. Sem fotos, sem ornamentos. Só texto. Pelo prazer de compartilhar idéias.

Defini que iria voltar a escrever um blog. Desta vez sobre saúde mental. Não apenas sobre psiquiatria. Saúde mental. Sou psiquiatra. Mas o tema saúde mental é mais amplo. Psiquiatria significa cura da mente. Saúde mental abrange qualidade de vida, prevenção, psicologia positiva, áreas afins não contempladas sob o leque das tradicionais disciplinas base da psiquiatria (psicopatologia, psicoterapia, psicofarmacologia).

Minha esposa disse: “ninguém mais lê blogs. Tente o Instagram. Se você quer influenciar as pessoas, melhor tentar o instagram”. Puxa, quanta responsabilidade: “influenciar as pessoas”. Acho que não quero isto. Por enquanto, quero apenas escrever e imaginar que quem me lê esteja aberto a acolher algumas das idéias que aqui brotam como suas – gestadas num terreno intermediário entre escritor e leitor e, mais importante, dispensar as demais, que lhe parecerem inúteis, mal acabadas como um jardineiro a desfazer-se de algumas ervas daninhas.

Talvez, mais adiante, comece a postar alguns vídeos curtos no Instagram, YouTube. Mas acho que todo o arsenal preparatório – fotos, vídeos, ambiente, letras, temas – tem me deixado um pouco cabreiro, exasperado.

Volto a brindar a simplicidade de um blog. Texto e tela. A celebração das idéias e nada mais. Uma vez um amigo me disse que eu escrevia como se estivesse numa mesa de um café-bar, talvez com uma dose de aperitivo. Achei a cena bonita e até entendi que era um elogio (“wishful thinking?”). Meu objetivo é apresentar meu modo de ver a saúde mental. Não é um modo sem viéses – que leitor se interessaria por alguém sem um ponto de vista?

Ainda não sei por onde a escrita vai nos levar. Peço sua colaboração para sugerir, interferir em temas, dar dicas de caminhos. Como um co-piloto que palpita: “Ei, você não tinha que ter dobrado naquela esquina?” Não tenho receio de revelar que, no mais das vezes, neste espaço, estarei perdido, e que esta percepção me traz mais curiosidade que medo.

Um blog é um debate continuado. Quase um monólogo. Ok. É um monólogo, a não ser pelos raros comentários. Melhor ainda – um blog é um diálogo onde o leitor tem a rara capacidade de oferecer sua atenção e de só interromper quando o outro tiver completado. Mas completar nem sempre é terminar. Ninguém mais lê blogs. Ninguém mais presta atenção. Exceto você. Um brinde a você, caro(a) leitor(a). Por ser esta pessoa que não existe mais. A singularidade de um leitor de blogs em tempos de fake news, tweets, hiperconectividade, AI e IGTV. Ser pessoa em tempos de siglas e números…

Abordar saúde mental é encarar cada pessoa como se fosse o último exemplar de uma espécie que quase não existe mais, insubstituível, em suas peculiaridades, defeitos e potencial.

About the author

Hamer Palhares

Dr. Hamer Palhares é médico psiquiatra com ênfase no tratamento de pacientes com problemas decorrentes do uso de substâncias. Escreve sobre qualidade de vida, saúde mental e psiquiatria. Autor do livro de ensaios Tamarindos e Sonhos (Amazon).

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