Idosos e Dependências

Se eu soubesse que ia durar tanto tempo, tinha tido mais cuidado comigo. [George Burns – comediante americano.]

 

Princípios:

 

  • Há um manto de vergonha em abordar a dependência entre idosos, é como se envolvesse a honra de toda a família. O próprio paciente pode se sentir constrangido com os questionamentos. Assim, é fundamental criar uma boa atmosfera de interação (rapport) antes de avançar para questões mais delicadas.
  • A gerontologia é um conjunto de conhecimentos científicos aplicados ao estudo do envelhecimento humano, nos aspectos biológicos, psicológicos e sociais. A partir daí temos duas áreas: a geriatria (ramo da medicina que visa tratar as doenças associadas ao processo de envelhecimento) e a gerontologia (disciplina para o estudo do envelhecimento).
  • Quando há condições clínicas concomitantes, o quadro de abstinência pode aparecer de modo mais expressivo, mesmo em pacientes sem longo histórico de dependência (muitas vezes o idoso está desidratado, deixou de tomar o BZD, ou há uma interação medicamentosa).
  • De qualquer modo, não perguntar e não investigar continuará sendo a pior opção.

 

Introdução

Em geral, o abuso de drogas é relacionado à juventude. Não faltam pesquisas que mostrem o avanço do consumo de substâncias lícitas ou ilícitas dragando usuários cada vez mais novos.

Quando, no entanto, quando a dependência química é relatada na terceira idade, o cenário também se mostra desolador. A dependência, associada a outras doenças degenerativas, é extremamente debilitante para os mais velhos. Isso quando o paciente consegue romper a faixa dos 60 anos.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, o álcool – a droga lícita mais consumida em todo o planeta – é responsável por 3,2% de todas as mortes registradas anualmente. O efeito devastador sobre a saúde do sujeito consome 4% dos anos de vida útil. Na América Latina, esse desgaste chega a 16%. A projeção do Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE) mostra que o brasileiro pode viver até 72 anos, em média. Não será o caso de quem abusa do álcool desde os 18 anos. Ele corre o risco de não chegar lá: a doença baixa a expectativa de vida para 60 anos!

Os jovens hippies nos anos 60 e toda a geração que assistiu a chegada dos Beatles e Rolling Stones, as viagens de LSD, a revolução sexual e o início da pílula anticoncepcional são os idosos jovens de atualmente. Estes e os adolescentes que após os seus 25–30 anos mantém o uso e abuso de substâncias psicoativas, as mulheres que cada vez bebem mais e mais cedo, serão possivelmente, num futuro breve, dependentes de álcool, tabaco e outras drogas na terceira idade.

O Brasil tem apresentado – boa notícia – um significativo envelhecimento populacional e melhora das condições sócio-econômicas. Estes dois elementos, por si, explicam porque é importante que o profissional esteja preparado para abordar a dependência química na terceira idade. Prevê-se, assim, que o grupo de maiores de 60 anos representará 15% da população brasileira em 2.050.

A questão é que boa parte desta população acaba envelhecendo sem qualidade de vida e sem saúde. O número de idosos que utilizam qualquer medicação é por volta de 60% e, boa parte deles consomem diversos fármacos no mesmo dia.

Desafios existenciais na terceira idade não faltam: A chegada da aposentadoria, as limitações físicas, a perda de papéis sociais previamente relevantes, que podem conduzir para o uso de álcool e de medicação prescrita, como os benzodiazepínicos e os opióides.

O álcool, cigarro e outros sedativos são frequentemente usados para minimizar a solidão, aumentar a auto-confiança, ajudar no tratamento da insônia, obter um relaxamento ou aliviar a dor.

 

 

hamer_site_idoso

O uso de tabaco, álcool e drogas pode colaborar para o envelhecimento precoce.

Senescência vs. senilidade.

“Ah, eu não tenho nada para fazer mesmo, porque tenho que dormir só 04 horas por noite?”
“Ah, que mal há em ir ao bingo todos os dias? Eu já estou aposentada!”

“Que mal tem eu beber minhas duas dosesinhas de pinga todos os dias? Qualquer hora eu vou morrer mesmo…”
“Fico o dia inteiro sem fazer nada, então fico triste, então bebo e esqueço que estou triste”

Os trechos acima apresentam um ponto comum e frequente na observação clínica entre idosos, a saber, a baixa expectativa quanto ao papel social do idoso. Tal distorção pode banalizar condições fronteiriças entre o normal e o patológico ou mesmo nitidamente patológicas.

A senescência é o processo fisiológico do envelhecimento onde ocorre limitação de funcionalidade e não perda. Por sua vez, a senilidade é o processo patológico do envelhecimento com perda gradual da funcionalidade. E isto não é “normal para a idade”. É fácil rotular modificações da independência, do comportamento e da conduta do idoso como “normal para a idade”. E por trás disso se esconde uma série de comorbidades que não são devidamente abordadas e nem mesmo desconfiadas nos idosos.

Temos que lembrar que a expectativa de vida está subindo e para uma pessoa que está com saúde aos 60 anos, o horizonte de 80, 85 anos é bem plausível. E mais: com qualidade de vida, desde que hábitos saudáveis de vida sejam implementados.

Há elementos culturais importantes reforçando este nosso mal hábito (como população). Em países com alta longevidade, como no Japão, a valorização do idoso é peculiar. E o idoso se propõe um desafio todos os dias: “O que vai me manter vivo hoje?”.

 

Sexo, Amor e AIDS na Terceira Idade

Os idosos não vão para a guerra mas são eles quem decidem se a guerra deve ou não acontecer…

— Cícero.

Certamente teremos que conviver com rugas por muito mais tempo que conviveremos com músculos. Será que estamos preparados para isto?

O idoso deve ser valorizado nas qualidades que nele são mais caras: ponderação, experiência, bom senso, visão abrangente da vida, humor refinado e amadurecido. Mas também em seu erotismo, abafado pela sociedade utilitária em que vivemos em que é praticamente impossível vender um relógio de pulso sem exibir uma mulher seminua na flor da idade.

O perfil da população idosa mudou. Vem aumentando o nº de pessoas entre 50 a 70 anos com Aids. Atualmente, pessoas acima dos 50 anos estão cada vez mais ativas sexualmente, principalmente após o advento de fármacos que melhoram o desempenho sexual.

Abaixo uma nota de 2007 do Ministério da Saúde sobre Aids na terceira idade.

O crescente número de casos de Aids entre as pessoas com mais de 60 anos preocupa tanto a rede pública de saúde que no início de 2004 foi criado o Ambulatório de Aids do Idoso. Naquele ano, a unidade atendia 20 pacientes por mês. Agora, passados mais de três anos, auxilia cem doentes mensalmente. Isso representa 400% de aumento do trabalho”.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2007 foram notificados 13.069 ocorrências de Aids no País. Desse total, 467 (3,57%) são pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. O médico diz que a tendência é essa estatística ficar maior nos próximos anos, por causa do aumento da expectativa de vida dos mais velhos.

 

Alterações Metabólicas no Idoso

Discutir as alterações metabólicas no idoso seria material para popular um livro.

Alguns fatores importantes, no que tange ao consumo de álcool, tabaco e outras drogas são:

  • A diminuição da enzima álcool desidrogenase gástrica na fase tardia da vida. Esta enzima é um fator protetor, como por exemplo da ingestão de álcool, que é biotransformado já ao nível de estômago, diminuindo a quantidade a ser absorvida no intestino e que irá alcançar a circulação sanguínea na sua forma ativa e estar livre para distribuição e para interagir com seus sítios alvos de ação dentro do organismo.
  • Redução do fluxo sanguíneo intestinal
  • Redução da albumina plasmática
  • Aumento do tecido adiposo
  • Redução da massa muscular
  • Redução da atividade hepática e de enzimas hepáticas
  • Redução do ritmo de filtração glomerular
  • Aumento da alfa–1 glicoproteína
  • Redução de neurotransmissores e da sensibilidade dos receptores
  • Aumento da concentração dos fármacos

Todos estes fatores, agindo em conjunto, implicam em maior concentração das drogas no idoso (para uma mesma dose, se comparado com um adulto) e maior potencial de consequências adversas.

Por exemplo, o aumento da gordura corporal dos idosos inclusive prolonga o efeito de drogas lipossolúveis como os benzodiazepínicos, por isso temos que tomar cuidado ao receitar alguns tipos de benzodiazepínicos ao idoso, pois ele é mais vulnerável e muitas vezes esses medicamentos são utilizados para amenizar a dor, solidão ou outros fatores, e podem causar dependência.

Outro fator que costuma ser pouco valorizado no idoso é menor sensação de sede, portanto maior risco de desidratação, de toxicidade por medicamentos e drogas de abuso. Isto é especialmente mais importante nos períodos de inverno, já que sede fica menos perceptível (daí o maior risco de doenças circulatórias e respiratórias).

Encurtamento do sono e frequentemente mal diagnosticados como insones, o que os faz receber prescrições inadequadas de ansiolíticos por longos períodos, fomentando o desenvolvimento da dependência.

Para finalizar, os idosos são mais susceptíveis a polifarmacia. 20 % dos idosos norteamericanos tomam 10 fármacos diferentes e 60 % tomam 5 fármacos.

 

Benzodiazepínicos na Terceira Idade

Algumas medidas preventivas a serem adotadas para diminuir o abuso de benzodiazepinicos entre os idosos incluem:

  1. Tratar a síndrome clínica para a qual o benzodiazepinico foi indicado;
  2. Monitoramento do uso abusivo de benzodiazepinicos,
  3. Associar intervenções psicosociais antes de prescrever benzodiazepinicos para o tratamento de estados ansiosos ou insonia;
  4. Higiene do sono (Leia Post “Como Dormir Bem em 10 Passos”)

 

Abordagem Psicoterápica do Idoso

“O mais espantoso nos velhos é a sua falta de pressa, como se eles dispusessem de todo o tempo que teriam os moços, se não tivessem tanta pressa…”
— Mário Quintana

Muitas vezes, os idosos não relatam a utilização de drogas, por vergonha ou culpa. Rótulos devem ser evitados, como alcoólico, abusador de drogas.

É importante que esses pacientes entendam que a informação sobre o uso de drogas servirá para garantir um melhor diagnóstico e tratamento, para evitar medicações que poderiam prejudicar o paciente.

Devido ao uso de tais substâncias, poderá haver prejuízos cognitivos e outros transtornos mentais podem co-ocorrer. Dessa forma, é pertinente dedicar tempo para orientar paciente e familiares.

É fundamental o afeto a compreenção por parte dos familiares a estes entes. O acompanhamento e a atenção que poderão dar fará toda a diferença para os idosos.

Muitas vezes temos o preconceito de achar que o idoso não pode mudar ou que ele seria mais resistente que um adulto ou um jovem, algo que não se comprova na maioria das vezes.

O idoso deve ser orientado no caso da dependência química, no sentido de que em qualquer idade deixar o uso resultará em significativos ganho de qualidade de vida. Por exemplo, no caso do tabaco o paciente ganhará mais mobilidade física e melhora da respiração e do paladar.

A abordagem vai depender muito da habilidade do entrevistador e do contexto no qual a relação terapêutica se estabelece. O ideal é propiciar um ambiente acolhedor, confidencial, sem julgamentos.

A habilidade imprescindível é gostar de trabalhar com idosos e respeitar as metas do tratamento, conforme a compreensão deles e não buscar realizar o mito de Pigmaleão, ou seja, dar vida à criatura imaginada (fazer com que o paciente cumpra os objetivos estabelecidos pelo terapeuta e não os seus próprios).

O tratamento psicológico tem como objetivo proporcionar apoio emocional ao idoso, reduzindo sua ansiedade e aumentando sua confiança e auto-estima. As técnicas mais utilizadas para o trabalho com o idoso são:

  • Psicoterapia Breve – Técnica bastante utilizada, por ser dinâmica, flexível e de tempo limitado. Ela tem limites elásticos para incluir elementos de psicoterapia de apoio, psicoterapia reeducativa (terapia cognitiva) e psicoterapia reconstrutiva (psicanálise).
  • Terapia Cognitiva – É uma técnica de tempo limitado, que inclui confrontação leve, educação e explicação. Busca uma abertura para o futuro, questiona com o paciente seus conceitos alterados a respeito de si próprio, do futuro e do mundo ao redor tentando alterar a tríade. Busca reexaminar crenças disfuncionais e remodelar o modo como o paciente relaciona-se consigo mesmo e com o ambiente que o cerca.
  • Terapia da revisão de vida – Auxilia a aumentar a tolerância do conflito, aliviar conflitos remotos, culpas e medos, aumentar a generosidade e aceitação do presente.
  • Terapia de Grupo – O grupo funciona como um espaço no qual o idoso encontra proteção para as angústias decorrentes das perdas. Através da catarse, universalidade, cooperação e reedição de experiência emocionais significativas, o grupo funciona como um microcosmo relacional, permitindo crescimento emocional significativo.

 

Psicofarmacologia na Teceira Idade:

Assim como o adulto jovem, o idoso precisa ser avaliado de forma integral, considerando algumas particularidades.

Além da abordagem cuidadosa, a administração de psicofármacos precisa ser rigorosamente controlada. Isso porque além de interferir no controle das demais doenças existentes – cardiopatias e hipertensão, por exemplo –, corre-se o risco de contribuir para outros quadros de dependência química, ligada aos medicamentos, especialmente no caso dos calmantes da classe dos benzodiazepínicos (que incluem medicamentos amplamente utilizados, como lorazepam, diazepam, clonazepam, alprazolam entre outros).

Como já se observou acima, sempre considerar as diversas alterações metabólicas e os diversos medicamentos que o paciente idoso possa utilizar no seu cotidiano (bem como “suplementos alimentares, chás e vitaminas”).

E, quando necessário for utilizar medicamentos, há a máxima acerca da psicofarmacoterapia em idosos, que deve ser sempre respeitada:

Start low and go slow, but go.

– Máxima sobre a psicofarmacologia (e por que não sobre a psicoterapia?) nos idosos.

Ou seja, começar com doses baixas e não ter pressa de aumentar os medicamentos. Doses que podem ser consideradas baixas para o adulto podem ser suficientes para o tratmaento de idosos.

 

Interações Medicamentosas

Como são muitos os mecanismos envolvidos nas interações medicamentosas (que tendem a ser mais complexas quanto mais medicações são acrescentadas), o melhor é buscar em motores de interações específicas.

Algumas alternativas disponíveis gratuitamente na internet:

 

Finalizando…

Este post (por longo que tenha sido, I’m sorry!), lembrou algumas peculiaridades sobre o envelhecimento, o uso de drogas e a necessidade de melhor abordagem deste problema.

Nenhuma das informações prestadas neste artigo, como em qualquer outro deste site, substitui a avaliação clínica criteriosa por um médico de sua confiança, mas tem o objetivo informativo e de fazer pensar e considerar que, certamente, o pior a se fazer é fingir que nada está acontecendo.

Investigar Sempre!

Sobre o consumo de álcool tabaco e drogas entre idosos…

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *