Como perdi 20 quilos

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Havia pensado em escrever um texto sobre alimentação e nutrição. Tema, contudo, escorregadio e complexo demais. Não sei se daria conta. Por ora e para a finalidade de comunicação e reflexão, contar um pouco da minha história nutricional é o suficiente. Menos pretensioso e mais verdadeiro.

Escrever é um exercício de verdade e não creio que tenha acesso à verdade quando se trata do nobre ato de comer. Vai aqui um texto confessional.

Antes de contar como perdi 20 quilos, é preciso recordar que eu havia ganho 20 quilos. Rebobinemos os fatos para o período anterior ao iô-iô.

Sempre fui uma criança magra. De dar dó. Sério.

“Dê Biotônico Fontoura antes das refeições para fazer esse menino ganhar umas carnes…” – era um conselho que minha mãe sempre ouvia. Nada adiantava. Veio a faculdade, a adolescência. Ganhei peso apesar de comer no restaurante universitário (um feito e tanto!). Questões hormonais, envelhecimento, sedentarismo? Não sei ao certo. Verdade é que sempre tive uma queda por doces. E nasci numa família de formigas. Sobremesas três vezes por dia. Tenho tias que trocariam a refeição salgada por doces.

Tendo um 1,78m terminei a faculdade com algo entre 70 e 72kg, dependendo se me pesasse antes ou depois das festas de fim de ano. Já não era o esqueleto do final do colégio (cerca de 60kg). Talvez o que mais me lembre da época de infância, em termos nutricionais, é que comíamos comida. Raramente, industrializados. Coca-cola era um litro para dividir entre todos aos domingos. Casco retornável, lembram?

Assistia a filmes americanos e achava bárbaro que os alimentos viessem em caixinhas – leites, sucos, doces, até as comidas salgadas. Parecia mais chique e higiênico. Santa inocência, Batman!

Em 2010 estava pesando 90kg. Sei que é um curto-circuito e um salto grande na compreensão do texto. Sem lé-com-cré. Mas foi assim que engordei: sem saber por que, sem perceber o que havia acontecido. Pior é que se você me perguntasse o que eu costumava comer eu iria dizer que eu comia muito bem, obrigado. Eu realmente pensava que o tipo de alimentação que tinha era adequada e a quantidade era ajustada.

Talvez uma coisa eu já tivesse aprendido naquela época. Tomar café. Café mesmo, sem nada. Sem açúcar, sem adoçante. Este foi o primeiro passo da disciplina do paladar. Aprender que é possível apreciar o alimento por aquilo que ele é, sem desejar que fosse diferente (mais doce, mais salgado). Dali para retirar o açúcar de várias preparações, sucos e bolos foi um pequeno passo. Adoçantes sempre tiveram gosto de dipirona para mim. O uso crônico de adoçantes é um dos grandes experimentos sem controle da humanidade.

Naquele ano de 2010 eu reencontrei minha atual esposa. Este é um evento importante na vida de cada um de nós, talvez o mais. Rituais, gostos, companheirismo, hábitos alimentares. Infelizmente, casar com minha esposa é um conselho que eu não posso dar para mais ninguém. Mas, sim, escolha suas influencias e companhias (companheiro é aquele com quem se divide o pão, não é mesmo?).

Ela estava numa dieta sem glúten e sem leite. Embarquei na dieta por solidariedade. Basicamente, não havia nada que os seres humanos comiam que não tivesse glúten ou leite. A não ser, bem… a não ser aquilo que eu comia na época de infância.

Apesar de médico, nunca havia dado importância para esta questão de intolerâncias ou alergias alimentares – após o estágio de pediatria, para ser preciso. Fato é que a formação médica não valoriza a nutrição. Triste fato. Fato, ainda assim.

Comecei a perder peso. Cerca de 7 a 8 quilos em um ano. Sem fazer grandes esforços. Havia iniciado a dieta sem fervor. Quando estava com amigos ou havia brechas, dava uma escapadela. Mas comecei a perceber que pagava preços altos a cada deslize: indisposição, sonolência, falta de foco e outros sintomas que ficam melhor fora do texto… Perguntava sempre para minha esposa: “Você acha que foi porque eu exagerei?” Ela sempre me olhava: “Você sabe a resposta”.

Francamente, não sei se sei. Meu exame genético, o qual eu só fiz no ano passado, me diz que não tenho tendência a doença celíaca mas sou intolerante a leite. De qualquer modo, meu corpo sabe, após alguns anos de aprendizado e de atenção à alimentação, que não me dou bem com grandes quantidades de glúten. Ou seja: se tomar uma lata de cerveja ou comer um pão francês (note o “ou”) não terei grandes problemas. Se persistir, pagarei o preço. O problema do leite e glúten é serem tão pervasivos e abusados, por estarem em todas as receitas ao longo de séculos.

Feliz ou infelizmente, comer sem glúten ficou mais fácil. Algumas personalidades alardearam as vantagens e isto tornou os produtos sem glúten muito mais populares e – efeito colateral – mais caros. Basicamente, não há motivo para um pacote de macarrão de arroz ou milho custar 4 vezes mais caro que o feito com trigo. Aliás, há: uma clientela disposta a pagar.

Bom, mas ainda ficou faltando explicar como perdi os 13 quilos restantes. Comecei a estudar mais sobre nutrição. Aprendi a cozinhar. Como Michael Pollan sabiamente argumenta: você pode comer o que quiser, desde que cozinhe. Quando cozinha, tem uma relação íntima com cada um dos ingredientes, a escolha do que entra e sai da receita. Começa a ler os rótulos dos produtos de forma mais detida, i.e., o que está escrito no verso. Muita gente bacana não sabe que é nas letrinhas pequenas que você sabe de cada um dos ingredientes e da quantidade de cada um deles – os que aparecem primeiro estão em maior quantidade. Passei a preferir cada vez mais alimentos in natura e baixamente industrializados.

Evitar alimentos altamente industrializados e fast-foods é imprescindível para quem quer perder peso. Tais alimentos – os quais eu invejava na minha infância, lembram? – são anzóis para o paladar: frituras, óleos em excesso, açúcares disfarçados em miríade de nomes – melaço, polidextrose, xarope de glicose, etc… e quantidades absurdas de sal. Altamente calóricos e miseráveis do ponto de vista nutricional.

Algo que você aprende durante o curso de perder peso com saúde é que isto tem que ser feito com consciência – engordar, muito pelo contrário, vai muito bem no automático. Aquela história de cortar (ou contar) calorias é um equívoco. Dietas baseadas neste princípio tem 97 a 98% de fracasso, por mais bem intencionada e determinada que seja a pessoa. O médico canadense Jason Fung explica que caloria é um conceito físico e não fisiológico. O organismo humano não tem receptores para calorias e sim para hormônios. Assim, uma caloria não é uma caloria. Ops, peraí?!?

Cem calorias de refrigerante não são o mesmo que cem calorias de abacate (eu sei que o certo é quilocaloria, viu? Mas vou escrever errado porque é mais gostoso). Abacate é mais nutritivo, tem substâncias antioxidantes, gorduras da melhor qualidade que há (não acredita? Tente comprar um vidro de azeite de abacate e prepare-se para a facada…) Refrigerante é coisa do diabo, segundo a maioria dos nutricionistas e estudiosos. Como um primo meu gosta de brincar, não passa nem pelo estômago, se deposita direto na gordura abdominal. E por quê? Não há sequer uma molécula de fibra há um quilômetro de distância, e a quantidade absurda de açúcares gera uma resposta rápida de insulina que faz seu organismo reservar aquilo tudo e – pior – vai gerando, ao longo do tempo, resistência à ação da insulina, raiz de vários males, desde ovários micropolicísticos a diabetes e obesidade.

Assim, outra atitude que tomei foi a de escolher alimentos altamente nutritivos, independentemente da quantidade de calorias e de riscar alguns alimentos do mapa: refrigerantes, biscoitos recheados (com ou sem glúten e leite), chocolates com menos de 60% de cacau.

Continuei perdendo peso e após 2 anos já estava com 15 quilos a menos. Numa refeição com uma amiga, Eroy, pedi um macarrão a bolonhesa e enquanto comia, senti uma vontade desconcertante de chorar. Não havia nada de errado acontecendo, nada tinha a ver com a conversa. Dei-me conta, de uma forma que não se transmite via texto, que estava comendo carne. E que aquele prato tinha sofrimento como um de seus ingredientes.

Há pouco mais de um ano e meio virei vegano. Vegano é o tipo de extra-terrestre que não come nem consome nada de origem animal. Nem mel. É radical, eu sei. E é por isto que não recomendo para ninguém. É o tipo de viagem que você tem que preparar bem as malas antes de comprar o tíquete de ida. Foi abrupto, sem preparação.
Passei a comer mais vegetais. Não tolero carne de soja ou alimentos que tentem imitar os pratos carnívoros. Prefiro pensar que radical é o que vai à raiz. Vou à raíz e como.

Parece que a dieta vegana está associada a aumento de expectativa de vida e redução do IMC (peso/altura ao quadrado) – há vários estudos neste sentido. Um comediante americano se expressou bem: este tipo de dieta faz as pessoas viverem vidas mais longas ou apenas faz com que a vida pareça mais longa? De uma forma ou de outra, fato é que perdi mais alguns quilos com esta dieta. Por ser uma dieta naturalmente menos calórica, acaba sendo mais fácil manter o peso.

Durante todo o processo, fui acompanhado por nutricionista que me ajudou a rever os passos com segurança, sem fazer nada que pudesse prejudicar minha saúde. Tomo suplementos que auxiliam a dar contorno às escolhas alimentares que fiz.

De 90 para 70 quilos, desta vez sem volta: taí, mais ou menos explicado. Não sei se foi por tirar o glúten e o leite no início ou mais pelo fato de ter mais consciência do que poderia comer ou não – e de aprender a dizer não.
Assim, os ingredientes que compuseram minha receita e que podem servir para alguns leitores:
– Consciência: toda dieta começa com consciência e termina na infelicidade. Quando você fica consciente do que está ingerindo, muda o que leva à boca (o observador muda o objeto de sua observação). Se ficar infeliz, acabará incorrendo em alguma forma de auto-indulgência. Se se julgar de forma árdua, acabará retomando antigos maus hábitos (perdido por um, perdido por vinte).
– Reconheça os bad guys: refrigerantes, salgadinhos, biscoitos doces, sorvetes altamente industrializados. Bebidas alcoólicas em excesso. Simplesmente corte. Dói, eu sei, mas é possível e efetivo. Estes alimentos inflamam seu organismo, aumentam o grau de oxidação e favorecem o envelhecimento e adoecimento.
– Talvez testar se você é intolerante ao glúten e leite. Retire cada um destes alimentos por um mês. Veja se há alguma diferença. Se houver, você notará (e a balança também).
– Faça refeições em horários pré-estabelecidos e esqueça snacks. Três ou duas refeições por dia são o suficiente (aquela baboseira de comer a cada 3 horas não tem base científica, acho que foi o tigre da propaganda de cereais que nos convenceu disso).
– Não falei – intencionalmente – sobre jejum. Como numa música, as pausas são tão importantes quanto os sons. Comer e jejuar são faces de uma mesma moeda.
– Mais importante, nenhuma das atitudes é capaz de explicar o que aconteceu. Eis o que acredito ser mais verdadeiro em termos de alimentação: o todo é maior que a soma das partes. Temos a tendência de buscar respostas simples para problemas complicados, as quais se revelam parciais, falhas, incompletas.

Sei que minha experiência é pouco prática e não gera resultados tão rápidos quanto muitos querem. Perfeitamente compreensível. Creio que esta ligeireza e pressa por resultados de curto prazo, o tal do imediatismo, componham a receita inversa – a de ganhar peso. Comer saudável não é prático – e nem mesmo barato – outra perversão do sistema atual, amplamente amparado no fast food e na indústria de alimentos super-modificados.

Daí a importância do slow food, da consciência a cada escolha. Escolher consciência, sem perder o humor, a flexibilidade. Pisar na carne de jaca de vez em quando. Há algo que transcende a alimentação e que ilumina a mesa de jantar. Aprender a apreciar e valorizar o momento breve que temos com as pessoas que mais nos conhecem na vida. Respirar para comer. Comer para nutrir. Nutrir, verbo transitivo direto, em seu significado esquecido, é – tão-somente – revigorar.

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Leituras recomendadas:

  1. The Obesity Code. Jason Fung
  2. Cozinhar. Michael Pollan
  3. Vegetarian Diets: Crhonic diseases and longevity
  4. Vegetarian Dietary Patterns and Mortality in Adventist Health Study 2

About the author

Hamer Palhares

Dr. Hamer Palhares é médico psiquiatra com ênfase no tratamento de pacientes com problemas decorrentes do uso de substâncias. Escreve sobre qualidade de vida, saúde mental e psiquiatria. Autor do livro de ensaios Tamarindos e Sonhos (Amazon).

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