Começo ou Recomeço


O advento do crack completa trinta anos. Sua chegada em São Paulo tem quase a mesma idade. Mesmo tendo ganhado amplo espaço nos noticiários e nas discussões populares, sua abordagem não tem ganhado a simpatia das autoridades públicas – além do plano verbal…

Fato é que somos o campeão mundial no consumo de crack e vice no de cocaína (ou seja, um exército que pode mudar de via de administração e, no futuro, tornar-se dependente de crack…).
O tratamento da dependência de crack é desafiador e, apontam os estudos, vale a pena. Seja pelo quanto é poupado em sofrimento e danos psíquicos e físicos, seja pelos recursos financeiros economizados quando o paciente está em tratamento.

À primeira fase do tratamento – que é a abordagem da dependência em si, da síndrome de abstinência e o manejo das frequentes comorbidades físicas e psiquiátricas – segue-se a reinserção social ou reabilitação. Esta é uma peça primordial na recuperação: muitas vezes, superada a fase inicial do tratamento, a frustração ao deparar-se com o mercado de trabalho, a falta de habilidades sociais e técnicas para começar ou recomeçar acaba sendo um gatilho para a recaída.

É comum numa dependência diversos “recomeços”. No entanto, os melhores estudos apontam que aqueles que se mantém em tratamento acabam atingindo um grau maior de estabilidade e a abstinência mantidas no longo termo.
É ante este prisma que deve ser analisada a série de recentes iniciativas de maior disponibilização de intervenções terapêuticas.
Denominado Recomeço, o programa do Governo de São Paulo para enfrentamento do crack prevê a entrega de cartões no valor de R$ 1.350,00 para o tratamento de dependentes da substância. Não incluirá, num primeiro momento, os paulistanos e os menores de idade.

O prazo do benefício será de seis meses, conforme site do Governo e a dispensa será feita diretamente às entidades que fornecerem o serviço.
Iniciará por onze cidades do interior e terá um público alvo de 3.000 pacientes, todos eles aquiescentes ao tratamento voluntário. Ou seja, é um projeto importante e modesto. Pode servir como um plano piloto, uma vez que o número total de usuários é muito maior.
A escolha dos serviços será por aqueles de baixa complexidade por uma questão de custos (clínicas médicas costumam ter um valor até cinco vezes superior).

Para melhor andamento da iniciativa, é mister que a escolha e capacitação adequadas dos serviços, visando garantir a qualidade, bem como monitoramento de gastos, sejam feitos continuamente.
Tais serviços deverão ser aparelhados para permitir não só uma intensidade adequada de tratamento – logo, a um custo acessível – mas modalidades diversificadas o suficiente para abarcar as diversas necessidades dos pacientes – psicológicas, ocupacionais, sociais, biológicas, jurídicas e familiares. Ou, pelo menos, integradas a outros serviços que possam trabalhar em parceria. Em suma: variedade de serviços, treinamento, dinamismo, integração.

Vale salientar que não se trata de “bolsa-crack” como poderão combater os inadvertidos ou mal-intencionados, do mesmo modo que não se denomina “bolsa-diabetes” a disponibilização de insulina para os portadores desta patologia. E, mesmo se fosse o caso, há estudos mostrando boa efetividade de abordagens que concederam vouchers para atividades culturais e benefícios para pacientes aderentes ao tratamento e que se mantiveram abstinentes conforme exames de rastreamento urinário.
Neste sentido, a iniciativa, sem paralelo até o momento, revela um quê de humildade e de mea-culpa: precisamos fazer mais – muito mais – do que tem sido feito até o momento. Nesta mea-culpa, sim, estou eu e o caro leitor.

Será o suficiente? Certamente que não, mas me parece um passo na direção correta. Os outros diversos passos incluem:
Na prevenção: educação e detecção precoce efetiva nas escolas, psicoeducação sobre o tema para pais, adolescentes e professores, redução do consumo de álcool e tabaco (porta de entradas para as demais drogas).
No tratamento: disponibilização de tratamento imediato e sem filas, treinamento e capacitação das equipes de saúde do PSF para abordagem inicial dos casos e seguimento pós-tratamento, leitos suficientes para internação (seja voluntária, involuntária ou compulsória). Maior integração dos diversos níveis de atendimento em saúde (primário, secundário e terciário).

Na reabilitação: maior entrosamento com os AA/NA (quase cem anos de experiência no assunto merecem nosso total respeito), formação de uma rede de serviços voluntários e conveniados para reabilitação psicossocial do dependente: quiçá alguma lei de incentivo fiscal? Eu voltaria a comer sanduíches se houvesse um “McDia Compassivo” beneficiando os dependentes de álcool e drogas. Mas, ok, admito, ficou parecendo piada. E sabe por quê? Por que é difícil encarar a sério este gravíssimo problema de saúde que – entre todos – é o que é mais amalgamado em preconceitos pela população. Por isto é que é preciso interesse, informação de qualidade, motivação, coragem e, sobretudo, compaixão.

Diversificação

Nada disso funcionará sem uma rede diversificada de serviços de tratamento. O cartão Recomeço pode ser um fio desta rede.
O campo das dependências de álcool, tabaco e drogas é por demais complexo para resumir-se aos rasos concordo ou não concordo: é preciso fazer e observar os resultados. Obviamente, pautado no que já existe de conhecimento no assunto. Contra este enfoque – pasmem – se levantam as vozes dos próprios especialistas na área num embate que gera mais calor que luz.

É preciso, pois, que se tenha a humildade de admitir que estamos assistindo a algo inédito no Brasil e que não temos certeza se dará certo, mas, como dizia Santo Agostinho, “a primeira qualidade das coisas é existir”. Assim, apenas a análise de resultados poderá dizer se esta é uma estratégia a ser expandida ou não.

Monitoramento

É imprescindível que dados de sucesso do tratamento como índices de abstinência, redução do consumo, volta ao estudo e trabalho, melhora de qualidade de vida fomentem análises de custo-efetividade e o gasto seja comparado a quanto se economizou em relação ao não-tratamento – que tem um impacto econômico bastante relevante.
Lembrando que há resultados que não são mensuráveis – a esperança e a saúde de pacientes e familiares não cabem em linhas escritas.

(Texto originalmente publicado, em versão editada, na Folha de São Paulo).

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