Cabeças Trocadas

Sobre a relutância em aceitar medicamentos quando é necessário…

 

“Muita gente boa e culta se recusa a tomar remédio quando precisa…”

A frase acima, já dispensa o texto abaixo. Contudo, aceite o convite para a leitura.
Psicofarmacoindústria. Há uma pressão corrente da indústria, da mídia e dos canais eletrônicos a encher-nos de (des)informações sobre saúde mental, obesidade, drogas, tabaco e álcool. Testes on-line, cartilhas de felicidade, propagandas de novos bálsamos para quase todos os males. Garrafadas modernas. Informações de boa procedência há e aos montes, sejamos justos. Mas quem tem tempo para ler tanta coisa? E viver a vida, onde fica?

Psicofarmacologia e psicofarmacoterapia. Uso racional de medicamentos para o tratamento dos transtornos mentais. Respeito aos princípios de diagnóstico preciso. Sem expectativas irreais. Imprescindível uma boa dose de arte. Pesquisadores não perdem o sono pensando em como tirar o trabalho dos psicoterapeutas. Há uma guerra desnecessária – tão tola quanto outras – entre os defensores de linhas divergentes de compreensão da mente. O ser humano não é epifenômeno de acontecimentos neurofisiológicos veiculados nas profundezas encefálicas. Tampouco é um psiquismo des-encarnado. Como entoava Sting: “We’re spirits in a material world”. Somos o próprio mundo material…
Chegado o DSM-V, bíblia da Associação Americana de Psiquiatria, que seria inútil para o Alienista de Machado de Assis, já que seu olhar sobre a alma era muito mais profundo.

 

Somados virtudes e mazelas, conclui-se: o DSM, como força-tarefa, é útil e – dada a disparidade cultural e as fronteiras não vencidas pela comunicação – indispensável. Óleo de fígado de bacalhau: já que temos que engolir, melhor que o façamos depressa.

A grande ameaça é a imprimir à psiquiatria o modelo fast-food de venda de produtos: o diagnóstico em uma consulta! E, mais grave, a maioria dos psiquiatras o faz em poucos minutos! Arrochados por arranjos trabalhistas cada vez mais opressivos. Estaremos à beira da “para-psiquiatria”?

Não! Psiquiatria é como re-descobrir uma receita típica no fogão a lenha: leva tempo, é preciso temperatura emocional adequada, é preparar o produto com legítima devoção. Um professor dizia que é preciso alguns fios de cabelos brancos… E que a base do estudo da Psiquiatra se assenta no tripé: { psicopatologia + psicofarmacologia + psicoterapia }. Para isto: atualização contínua, supervisão, psicoterapia pessoal. Saber ouvir e captar significados. Um treinamento – técnico e emocional – para maratonistas.

Consequentemente, a conta não fecha: a demanda por atendimento é expressiva e crescente. Some-se à receita: o uso amplo de álcool e drogas, dificuldades e custos da formação, baixos salários dos profissionais de saúde, a fúria monetária dos convênios, o dinheiro da saúde mal empregado.
Por outro lado, a melhor divulgação de conhecimento, a quebra sequencial de tabus e, finalmente – ainda que tenha um cheiro de utopia – o homem assumindo seu lado sapiens. Sapiens de Homo sapiens. Sapiens significa que não somos só carne, ossos, nervos e ligamentos. Somos sabedoria. E como tal, o homem questiona, sente, luta, idealiza, odeia. Tem fome e tem apetite.

 

Desejo e erotismo. Sede e paladar. Tem vergonha. Arrepende-se. Tem honra e saudades. Em resumo: mil maneiras de sofrer. E o que sofre no homem é o que se chama alma. Mas que diabos é a alma? “Alma é esta coisa que se questiona se a alma existe”, segundo o mago Quintana. E ponto. Para a medicina, a alma se chama mente. Ok, todos sabemos que não é exatamente isto, alma é um conceito transcendente e mente é um conceito técnico. A mente precisa do cérebro para existir.
Quanto à alma, quem sabe? E por que tamanho preconceito com o uso de psicofármacos? Não estou falando de gente iletrada, mas de advogados, religiosos, dentistas, filósofos, médicos, profissionais de nível técnico e superior. Gente conectada ao mundo virtual, que assina revistas, tem TV a cabo e geladeira que solta gelo na porta. E ressentidos com a idéia de usar medicamentos para tratar sofrimentos mentais.

Preconceito

Nada se compara ao pré-conceito: idéia rija anterior ao conceito (e que perdura quando apresentada ao real conceito...).

 

Idéia cascuda, refratária. O “Não li e não gostei”, atualizado para “não tomei e não adiantou”. Sugiro lidar com o preconceito ao estilo mineiro, comendo pelas beiradas. Leva tempo… Propaganda balanceada e realista, maior aceitação de que padecer fez, faz e fará parte da existência. É preciso ao homem rever-se. De frente para trás e de volta para a frente, palavra auto-reflexiva: rever.

A imagem em espelho daquele preconceito é a do sujeito que pensa que vai resolver seus problemas tomando medicamentos. Não, não vai! O uso de fármacos pode ser essencial, mas, em saúde mental, o paciente é – principalmente – agente transformador. O medicamento não vai nos transformar em abobados ou espertalhões. A menos que já o sejamos. Ainda que a mídia afirme o contrário.

Medicamentos servem para “engraxar” uma máquina que vinha soltando rangidos. O tratamento é uma partitura tocada a quatro mãos. Coloca-nos de pé novamente, andar é outra história…

Bion afirmava que o encontro terapêutico é envolve dois seres e, preferencialmente, um menos ansioso que o outro. Logo, o médico decide se o medicamento é necessário e o paciente decide se e quais relacionamentos deve perpetuar. Se deve dar duro no trabalho ou arranjar tempo para ficar com a avó doente. Se viaja para o Nordeste ou para Santiago de Compostela.

Como já diagnosticara Sartre: “o homem está condenado a ser livre”. A doença mental apresenta-se como reversão temporária desta condenação, sob um claustro embolorado e denso. Tratá-la é abrir as janelas e portas deste salão.

 

Reflexão

A beleza de cuidar de um ser humano em sofrimento, sendo um ser humano - e muitas vezes, também em sofrimento - é este exercício único e contínuo de liberdade, troca, compaixão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *